Hora da saudade

No dia, ou melhor na madrugada de 02/06/2006 morreu um amigo muito qerido meu.

Nos conhecemos na faculdade e aos pouquinhos ele foi tomando um lugar muito especial no meu coração. Seu nome era Carlos Ricardo, mas nunca era chamado pelo seu nome mas sim por seu apelido "WHAYA". Até mesmo nossos professores o chamavam assim. Quando soube de sua morte um buraco muito grande se abriu no meu peito. Havia encontrado com ele naquela mesma noite. Juro a dor foi tamanha que nem consegui chorar, só o que fiz foi escrever um pequeno texto e sua homenagem...

Tributo ao Whaya

    Agora no céu, brilha uma estrela a mais. Agora aqui na terra, vários olhos estão rasos d'agua. Pois quem muito nos alegrou com seu jeito de ser, agora doa toda sua luz as estrelas. Até mesmo a lua chora de emoção, ao se deparar com tamanha beleza, que divide o céu com ela agora.

    Parece que as coisas andavam tristes lá pra cima. Já que vieram buscar aqui a nossa alegria, um ser sem igual, sedento pela vida.

    Assim levaram, aquele que ja nasceu anjo, para enfim entregar-lhe suas asas....

    Jamais sera esquecido, para sempre sera amado.

Descanse em paz....

 

 

 

A Hora Íntima

Vinicius de Moraes

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Rio, 1950


Texto extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio, 1998, pág. 455

 

Em memória de uma grande amiga que se foi no dia 27/04/2010 Nani sentireimuito sua falta.